terça-feira, 15 de agosto de 2017


Um fenômeno anômalo que acontece com o movimento das pessoas com deficiência é o fato desse movimento delegar a sua retorica, de forma majoritária, a pessoas sem deficiência. Algo no mínimo contraditório não acham? Vejamos, os grupos de afirmação dos direitos de grupos minoritários surgem no pós II Guerra, e ganham maior expressão nos anos 70, nos E.U.A, e 80 no Brasil, para legitima a fala desses segmentos. De forma que, a grosso modo quem fala pelo movimento negro é um negro. Obviamente há brancos que defendem as questões do negro e até assume papel de destaque nesse movimento. Toda via, os negro, como também, o movimento feministas, GLBT.. enfim , de um modo geral o que confere legitimidade a esses movimentos é a capacidade de trazer a público as demandas sociais, existenciais , através das falas dos indivíduos pertencentes a tais movimentos.
No caso das pessoas com deficiência a fala que prevalece dificilmente é das pessoas que tem deficiência. Há uma delegação tasca dessa retorica por outros atores, que  assume um protagonismo incoerente. Claro que eu , branquelo que sou , posso e devo defender os direitos  dos negros, é salutar que haja essa interação ideológica. Toda via , é sempre esse homem negro e essa mulher negra, os personagens a assenta-se na cabeceira da mesa quando o assunto a ser tratado for pertinente a afirmação da cidadania dos negros na sociedade. De outra forma , esses individuo exerceria uma ‘subcidadania’, condicionada ao dizer do outro.

É justamente esse cenário que percebo no movimento das pessoas com deficiência. Há claramente uma submissão da fala desse personagem dentro da configuração política de um movimento que deveria ter como protagonista as pessoas com deficiência. No entanto o paternalismo institucional ainda vigora. A pergunta que impõe nesse cenário é uma só: como advogar a cidadania de um segmento social se aqueles que a advoga não a pratica? 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Um dos maiores desafios da sociedade brasileira é o crescimento de atos infracionais por crianças e adolescentes, em geral oriundos das classes mais carentes e muitas das vezes influenciados pelo tráfico de drogas. Na base desse grave problema social, estão vários fatores como a ausência de estrutura familiar, a evasão escolar e a falta de perspectiva. A Prefeitura do Rio trabalha para acolher e ressocializar jovens que estejam cumprindo medidas socioeducativas. Atualmente, 987 adolescentes participam do Programa de Medidas Socioeducativas em Meio Aberto.
 O programa da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH), em parceria com o Poder Judiciário, promove acompanhamento social de adolescentes, de 12 a 18 anos, com o objetivo resgatar os laços familiares e contribuir para o acesso a direitos desses jovens, bem como para a reintegração social. Em funcionamento em 14 Centros de Referência de Assistência Social (CREAS), o projeto conta com equipes interdisciplinares formadas por assistente social, psicólogo, pedagogo e advogado. Atualmente 165 profissionais estão diretamente envolvidos no programa.
 De acordo com o assistente social Leandro Teixeira da Assis, que trabalha no Centro de Referência de Assistência Social Maria Lina de Castro Lima, em Laranjeira, o primeiro passo é o de conquistar a confiança do adolescente no trabalho de ressocialização proposto pela equipe. Para Leandro, é imprescindível que se conheça o histórico familiar e social desse jovem para que os profissionais do programa possam, de fato, auxiliá-lo em sua reinserção social.
 - É vital para o nosso trabalho que a gente ganhe a confiança desse adolescente. Para isso, é importante saber a sua história familiar, comunitário e social. São elementos que precisam ser compreendidos e considerados. É justamente entendendo essa história que vamos traçando nossa linha de trabalho - disse o assistente social.
 O Programa de Medidas Socioeducativas em Meio Aberto beneficia os jovens que vêm encaminhados pela Vara da Infância e Juventude para cumprimento da medida de Liberdade Assistida (LA) e/ou de Prestação de Serviço à Comunidade (PSC).

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- Nossa abordagem inicial é no sentido de fazer o acolhimento desse jovem, explicamos como acontecerá o processo dessa medida, e já num segundo atendimento começamos a traçar um planejamento de reinserção social, seja fazendo encaminhamento para o mercado de trabalho ou para escola já que muitos estão fora do sistema educacional. Levamos sempre em conta as demandas que o jovem traz e suas potencialidades - explicou Leandro.
 A maioria dos adolescentes que chegam ao Programa de Medidas Socioeducativas em Meio Aberto tem, em média, entre 14 e 16 anos, são do sexo masculino, negros ou pardos e em situação de rua. Em geral, são atraídos pelo tráfico de drogas ainda na infância.
 Para a psicóloga Marcela Almeida de Brito, esses jovens são vítimas de desestruturação social e familiar, além da cultura de violência imposta pelo tráfico de droga:
 - Não podemos negar o poder do tráfico na vida desses adolescentes. Na realidade, estamos falando de crianças que não tiveram infância, que já crescem em meio à cultura da violência, além da ganância pelo dinheiro fácil. Tudo isso mexe, claro, com seus valores. O nosso trabalho é reestruturar os valores desses adolescentes.

Alguns jovens permanecem no programa após completar a maioridade dependendo da pena fixada pela justiça. É o caso de Rafael dos Santos Barroso que cumpriu a medida socioeducativa por três anos após ter cometido um único ato infracional, aos 16 anos. Durante esse processo, que teve o acompanhamento tanto pela LA como da PSC, ele trabalhou na parte administrativa do CREAS Maria Lina de Castro Lima. Hoje, aos 21 anos, já está reintegrado à sociedade.
-O período que eu passei aqui foi muito importante para mim. Fiz curso de Informática, me formei em Bombeiro Civil, tirei minha carteira de motorista - afirmou Rafael, que lembrou que bem diferente do tempo em que cometeu se ato infracional, hoje tem outra relação com a família:
 - Naquela época eu só pensava em ter roupas novas. Eu via as pessoas com carro novo e queria ter aquele carro. Quando eu era jovem não ouvia pai e mãe, só fazia besteira. Mas hoje em dia eu quero estudar, me formar em Direito, trabalhar e ajudar minha família. Minha família é tudo para mim - contou Rafael que já pensa em casar e ter filhos.
 - Aos meus filhos, vou dizer que fiz coisas erradas, corri risco de morrer, mas, pela graça de Deus, fui preso (apreendido) e lá eu ergui a cabeça e vi que aquilo não era bom para mim. Tive a oportunidade de refazer a minha história - disse ele.
 Exemplos como o de Rafael colaboraram para ressocialização de jovens. Roberto Pinto da Costa, 18 anos, ainda está no processo de reintegração social promovido pelo programa. Ele cumpre a medida em Liberdade Assistida.

 - Naquela época eu só fazia besteira, passava vários dias fora de casa. Hoje o que eu mais quero é arrumar um trabalho, ajudar minha família (irmão) e ser feliz - disse Roberto, que perdeu seus pais ainda na infância e, muitas vezes, vivia em situação de rua.