domingo, 21 de abril de 2013


Segundo o último censo do IBGE, em 2000, quase 25 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência, sendo que a imensa maioria diariamente enfrenta diversos obstáculos, que vão desde atravessar uma rua ou embarcar num ônibus não adaptado até o preconceito na hora de buscar um emprego ou ser matriculado numa escola. Para enfrentar essa realidade, a Prefeitura do Rio de Janeiro desenvolve o 'Programa de
Reabilitação Social Baseada na Comunidade' (RBC), uma iniciativa pioneira da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência. As equipes vão até as residências das pessoas que têm algum tipo de deficiência e moram em localidades de baixa renda, para realizar uma série de atividades que possibilitam maior qualidade de vida e a inserção no mundo do trabalho. O programa nasceu na década de 90 e beneficia atualmente cerca de 3.000 pessoas com deficiência e também suas famílias por toda cidade. O RBC conta com 23 equipes multidisciplinares, formadas basicamente por fisioterapeuta, fonoaudióloga, psicóloga, assistente social e terapeuta ocupacional. As equipes realizam orientações domiciliares, mostrando como a família pode auxiliar essa pessoa no dia-a-dia; encontros com a comunidade para reforçar a valorização desse individuo e até oficinas que visam não apenas ao desenvolvimento físico e emocional do usuário do RBC, como também à geração de renda. Zaine Sadala, supervisora da equipe do RBC que atua na localidade da Rocinha, em São Conrado, explica que o programa funciona como uma ponte para que esse usuário conheça os seus direitos e tenha acesso aos serviços públicos. Ela salienta que essa “porta de entrada” possibilita o reconhecimento da cidadania para pessoas que vivem uma realidade de exclusão extrema, causada não apenas pela deficiência, mas sobretudo pelas condições sociais em que estão. – A gente vai aonde os serviços não chegam. Vamos na casa daquela pessoa que mora lá em cima do morro e que é carente de atendimento em saúde, educação e até mesmo de informação – ressalta.
O trabalho tem inicio com um mapeamento do número de pessoas de uma comunidade que tenham algum tipo de deficiência. “Em seguida, a equipe vi de promoção, que inclui questões como educação, saúde, emprego e renda”. A extrema exclusão em que vivem as pessoas com deficiência nas comunidades de baixa renda ganha rosto e corpo em Daniele Dias dos Santos, 23 anos, moradora da Rocinha, que ficou tetraplégica após ser vitima de uma bala perdida na saída de um baile funk. A casa onde Daniele mora com mais quatro pessoas fica numa área de difícil acesso, onde é preciso passar por vielas estreitas e cheias de degraus para chegar. Por causa disso, ela passa maior parte do tempo deitada numa cama hospitalar.
No entanto, a partir do trabalho com o RBC, Daniele descobriu na pintura um meio para expressar seus sentimentos. Usando a boca, a jovem aprendeu a pintar paisagens e naturezas mortas há um ano, e nesse período já teve seus quadros expostos em diversos espaços, sempre orientada pela equipe do programa Zaine lembra que há dois anos, quando a equipe do RBC iniciou trabalho com Daniele e sua família, a saúde emocional e física da moça estava muito abalada.
– Nós a encontramos com muita dor, sem tratamento ou medicação, e por ficar o tempo todo deitada tinha constantes infecções urinárias. Além disso, ela se mostrava muito revoltada – conta a supervisora. Ainda magoada com sua atual condição, Daniele evita ao máximo conversar sobre o tema, mas o colorido dos seus quadros já deixa transparecer que há esperança no futuro.
– Conseguimos que ela recebesse o Bolsa Cidadão, e também  viabilizamos o tratamento dela na ABBR. Agora estamos tentando fazer com que ela se insira da melhor forma na sociedade. Esse é o nosso trabalho – conclui Zaine 

imagem : AF. Rodrigues 

terça-feira, 2 de abril de 2013


Para garantir um atendimento educacional especializado para os alunos surdos, a Prefeitura do Rio criou, em 2012, o projeto Escolas-Piloto de Educação Bilíngue. Desenvolvido pelo Instituto Municipal Helena Antipoff (IHA), órgão vinculado à Secretaria Municipal de Educação, o programa funciona em 21 escolas da rede municipal. Atualmente, fazem parte do projeto 767 alunos que apresentam algum nível de surdez, 35 deles totalmente surdos.
 As escolas bilíngues contam com professores com deficiência auditiva e intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) para atuar em salas de aula com alunos surdos. Mais do que facilitar a comunicação, a Libras é o instrumento de identidade das pessoas com deficiência auditiva, oficializada em 2002 como a língua mãe de cerca de 5,7 milhões de brasileiros que, segundo o censo de 2000, apresentam algum nível de surdez. Em 2013, quando o programa completa um ano, mais duas escolas da rede devem se tornar bilíngues, com o uso da Libras.
Há um ano estudando numa classe regular na Escola Municipal Benjamin Franklin, em Campo Grande, Jorge Ramos Dias, 14 anos, é um dos alunos atendido pelo programa. Segundo ele, a presença da intérprete em sala de aula tem sido fundamental para acelerar o aprendizado:
- Agora está sendo mais fácil, estou compreendendo melhor os textos e lendo com mais facilidade. Até mesmo em relação às ordens da professora, que antes eu não entendia. Antes eu só copiava, agora eu entendo. 
De acordo com a diretora do Instituto Municipal Helena Antipoff, Kátia Nunes, a Escola Bilíngue vem ao encontro da política de educação para surdos vigente na rede municipal de ensino, que tem o objetivo de favorecer a aprendizagem dos alunos com surdez, garantindo o acesso de todos ao currículo regular.
- O projeto proporciona um ganho na aquisição do conhecimento por parte dos alunos surdos. O contato com os intérpretes e instrutores tem oferecido um aprofundamento no desempenho linguístico. O retorno das escolas que fazem parte do programa demonstra que os alunos com deficiência auditiva têm apresentado ganhos em relação à aprendizagem e à autoestima – explica a diretora, acrescentando que o contato com profissionais surdos amplia os horizontes dos alunos e de seus familiares. 
A abordagem educacional das unidades é realizada por meio do bilinguismo, visando capacitar a pessoa com surdez para a utilização de duas línguas no cotidiano escolar e na vida social: a língua de sinais e a língua da comunidade ouvinte. Para Sonia Cristina Rocha, professora do instituto, o projeto tem a função de ressaltar a importância da presença da linguagem de sinais nas escolas da rede:
- O uso da Libras é importante não apenas como uma forma de facilitar a comunicação do aluno surdo com os outros, mas como um instrumento de afirmação da identidade desse estudante.
O trabalho dos 127 intérpretes e 120 instrutores de Libras da rede municipal de ensino acontece em dois momentos distintos: com o instrutor, que auxilia o aluno na sala de recurso, onde se reforça o conteúdo dado em classe, a partir do uso de métodos mais visuais que possibilitam uma melhoria no processo de aprendizagem; e com o intérprete, elo de comunicação entre o estudante com deficiência auditiva, o professor e o restante da turma em sala de aula.