Desde moleque, nunca me coloquei num lugar
extraordinário, nem para mais nem para menos. Na verdade, nunca me achei essa
Coca-Cola toda. Até hoje, não enxergo qualquer ser humano que esteja além ou
aquém da sua própria humanidade. Tudo o que eu sou cabe exatamente na minha
pequena — e imensa — condição de ser humano, de gente.
É claro que as contingências da vida me fizeram
precisar, por exemplo, de uma cadeira de rodas para circular pelos lugares, e
seria uma tolice negar esse fato. Mas também é imprudente reduzir toda a minha
existência a isso. Quando se exagera de um lado ou se apaga do outro, perde-se
o essencial: a complexidade humana.
Por isso, me soa muito estranha toda forma de rotulação
do ser humano ou das relações humanas. Afinal, que raio é uma “mãe atípica”?
Sempre que ouço essa expressão, imagino que, se eu chamasse minha mãe de “mãe
atípica”, tenho quase certeza de que Dona Geni me daria uns bons compassos —
como toda mãe muito típica. Uso aqui um toque de humor, mas o problema é sério.
Esse tipo de rotulação, mesmo quando se apresenta como
“do bem”, muitas vezes esconde a nossa incapacidade de enfrentar e resolver os
conflitos humanos necessários para a construção de uma sociedade
verdadeiramente inclusiva. Como estamos cada vez menos capazes de solucionar
esses conflitos de forma efetiva, criamos uma inclusão de plástico: rotulamos
pessoas, penduramos cordões no pescoço, fabricamos identidades aparentes e,
assim, varremos para debaixo do tapete a imensa exclusão humana que ninguém quer
encarar.
Se precisamos colocar um cordão no pescoço de alguém
para que, minimamente, meia dúzia de direitos seja respeitada, perdoe-me, mas
isso simboliza a falência de qualquer modelo de inclusão. Inclusão de verdade é
aquela em que seres humanos podem ser, simplesmente, seres humanos.

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