Atípico? Eu?

 

Confesso: não tenho apreço algum por rótulos. Do mesmo modo que não escolho sabão em pó pela marca, muito menos me relaciono — ou considero dignas de respeito — pessoas que ostentam “patentes da moda”. Sempre me lembro de que, na juventude, tudo o que a gente queria era passar em branco. Isso mesmo. Quando eu estudava, por exemplo, adorava ficar, com minha cadeira de rodas, no meio da fila da merenda, fazendo bagunça. E aí? Eu era apenas um aluno típico da Escola Presidente Médici.

Desde moleque, nunca me coloquei num lugar extraordinário, nem para mais nem para menos. Na verdade, nunca me achei essa Coca-Cola toda. Até hoje, não enxergo qualquer ser humano que esteja além ou aquém da sua própria humanidade. Tudo o que eu sou cabe exatamente na minha pequena — e imensa — condição de ser humano, de gente.

É claro que as contingências da vida me fizeram precisar, por exemplo, de uma cadeira de rodas para circular pelos lugares, e seria uma tolice negar esse fato. Mas também é imprudente reduzir toda a minha existência a isso. Quando se exagera de um lado ou se apaga do outro, perde-se o essencial: a complexidade humana.

Por isso, me soa muito estranha toda forma de rotulação do ser humano ou das relações humanas. Afinal, que raio é uma “mãe atípica”? Sempre que ouço essa expressão, imagino que, se eu chamasse minha mãe de “mãe atípica”, tenho quase certeza de que Dona Geni me daria uns bons compassos — como toda mãe muito típica. Uso aqui um toque de humor, mas o problema é sério.

Esse tipo de rotulação, mesmo quando se apresenta como “do bem”, muitas vezes esconde a nossa incapacidade de enfrentar e resolver os conflitos humanos necessários para a construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva. Como estamos cada vez menos capazes de solucionar esses conflitos de forma efetiva, criamos uma inclusão de plástico: rotulamos pessoas, penduramos cordões no pescoço, fabricamos identidades aparentes e, assim, varremos para debaixo do tapete a imensa exclusão humana que ninguém quer encarar.

Se precisamos colocar um cordão no pescoço de alguém para que, minimamente, meia dúzia de direitos seja respeitada, perdoe-me, mas isso simboliza a falência de qualquer modelo de inclusão. Inclusão de verdade é aquela em que seres humanos podem ser, simplesmente, seres humanos.

 

 

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